Artigo

Dom Petrini escreve sobre o nascimento de Jesus

Escrito por Dom João Carlos Petrini em 23 de Dezembro de 2019
[Dom Petrini escreve sobre o nascimento de Jesus]

O ACONTECIMENTO DO NASCIMENTO DE JESUS FILHO DE DEUS

O Evangelho de São Lucas relata o nascimento de Jesus como um acontecimento que se deu na história: “Aconteceu que quando Cesar Augusto era imperador de Roma e Quirino era Governador da Síria, ...” (Lc 2, 1). E, logo em seguida, os pastores, avisados pelos anjos do nascimento de Jesus, dizem: “Vamos a Belém para ver o que aconteceu.” (Lc 2, 13). No mesmo capítulo, o evangelista diz: “Maria guardava todos estes acontecimentos no seu coração.” (Lc 2,20).

A palavra acontecimento indica a realização de algo que não tinha sido previsto, que não é resultado de ações por nós realizadas, trata-se de algo surpreendente que quebra a rotina do óbvio, e chama a atenção porque é inesperado.

O Evangelista Lucas apresenta não somente o nascimento de Jesus, mas o cristianismo no seu conjunto como acontecimento. Muitas vezes, ao longo do Evangelho, ele usa o verbo ‘acontecer’, mas vale a pena recordar o capítulo 24, onde se fala dos discípulos de Emaús, que voltavam desconsolados para casa, depois da crucificação de Jesus, e “conversavam sobre todos esses acontecimentos” (c 24, 14).

No entanto, ao longo do caminho, Jesus já ressuscitado se aproxima deles como um peregrino e pergunta porque andam com ar tão triste. Eles respondem: “Tu és o único forasteiro em Jerusalém que ignora os fatos que nela aconteceram nestes dias? Quais? Disse-lhes ele. Responderam: “O que aconteceu com Jesus, o Nazareno, (...) Nós esperávamos que fosse ele quem iria redimir Israel, com tudo, faz três dias que todas essas coisas aconteceram.” (Lc 24, 18-21).

Os fatos que aconteceram despertam admiração, espanto, interesse, curiosidade porque revelam que Deus tomou a iniciativa e decidiu revelar-se, mostrando um rosto humano. A doutrina e as normas morais são consequências posteriores, elaborações teológicas importantes, mas não devemos perder a surpresa e a admiração por esses fatos. Os Papas São João Paulo II, Bento XVI e Francisco retomaram a palavra acontecimento em diversos documentos, como modo de retornar à origem dessa história, renovando a alegria do primeiro emergir dessa novidade.

O cristianismo é o anúncio de que Deus se fez homem, de que nasceu de uma mulher, num determinado lugar e num determinado tempo. O Mistério, que está na raiz, na origem de todas as coisas, quis que o homem e a mulher o conheçam. É um fato que ocorreu na história, é a irrupção de uma Presença humana excepcional no tempo e no espaço. Deus deu-se a conhecer revelando-se, tomando a iniciativa de se apresentar como fator da experiência humana, num instante decisivo para a vida inteira do mundo.

Festejar o Natal significa fazer memória dos acontecimentos que estão na origem de uma história grandiosa e que constituem fator muito relevante para que a nossa concreta experiência humana possa ter razões adequadas para encontrar beleza, significado, alegria, paz, mesmo em ambientes de grande confusão.  

Hoje o acontecimento cristão tem a forma da Igreja, do encontro com uma realidade física, corporal, feita de tempo e espaço. É o encontro com uma realidade presente, viva, integralmente humana, cujo significado exaustivo é ser sinal visível da presença de Cristo, do Deus-feito-homem dentro da precariedade de um semblante humano concreto. Esse encontro é o que atrai a nossa vida constantemente, é o que dá significado e beleza à nossa existência.

+ Dom João Carlos Petrini é bispo da Diocese de Camaçari

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